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Política Internacional e Diplomacia

CONFERÊNCIA DE ALTO NÍVEL
SOBRE A SEGURANÇA ALIMENTAR MUNDIAL – FAO

DISCURSO DO PRESIDENTE DA REPÚBLICA FRANCESA, NICOLAS SARKOZY

Roma, 3 de junho de 2008


Senhoras e Senhores,
Senhor Primeiro-Ministro, Caro Silvio,
Obrigado por nos receber.

Estamos no século XXI. Devemos e podemos alimentar o planeta e não o fazemos. A cada 30 segundos, há uma criança que morre de fome. A cada dia, há 25.000 seres humanos que perdem a vida porque têm fome. E há 850 milhões que sofrem com a fome. Esta é a situação. Ninguém, seja do Norte ou do Sul, pode aceitar essa situação. Ninguém. É preciso portanto agir e agir imediatamente. Agir significa o quê? Significa um objetivo simples: dobrar a produção alimentar mundial até 2050. Esta é a condição. E nós devemos dobrar a produção alimentar mundial preservando ao mesmo tempo o planeta. A partir daí, como fazer para ajudar os países em desenvolvimento a alimentar sua população? Há duas maneiras de responder ao imperativo de segurança alimentar.

A primeira é a do passado, que fracassou, e consiste em fornecer aos países em desenvolvimento produtos alimentares ao mais baixo custo do mercado mundial. Essa estratégia não deu certo. Ela era generosa, mas fracassou. A segunda estratégia, a do futuro, Sr. Diouf, deve repousar no desenvolvimento das agriculturas locais. O que o Senhor reivindicou tantas vezes. Esta é a única solução. É a solução sustentável, a solução responsável, mas também obrigatória. É preciso ajudar os países mais pobres a se dotarem de agriculturas modernas que possibilitem a sua auto-suficiência alimentar. Esta é a única opção estratégica possível.

A disparada dos preços de determinadas matérias primas agrícolas provocou debates acalorados sobre a questão dos biocombustíveis. Alguns são a favor, em nome da preservação do planeta; outros mantêm reservas, por considerar que se deve prioritariamente produzir alimentos.

Acho que prioridade absoluta para se tentar um acordo é desenvolvermos os biocombustíveis de nova geração. Os que permitam que se produza cinco vezes mais, na mesma área agrícola.

Assim, não serão penalizados os países que optaram pelos biocombustíveis e que não querem ser interrompidos e se reservará o máximo de hectares para a produção agrícola. Estava me esquecendo desse terceiro desafio que é falar em cinco minutos de como é possível alimentar 850 milhões de pessoas. Existe uma resposta de emergência e eu creio que todos os países disseram presente. A França anunciou que dobrará a sua ajuda alimentar de emergência: 100 milhões de dólares. Sei perfeitamente que isso nada resolve quanto ao fundo da questão; mas, por outro lado, não tê-lo feito teria sido demonstrar uma indiferença chocante, tendo em vista a gravidade do problema. E depois, existe o curto prazo. As colheitas de 2008 e 2009. Devemos decidir juntos que essas colheitas sejam abundantes. É preciso reescalonar as dívidas dos produtores, é preciso fornecer ajuda para a aquisição de adubos e sementes, é preciso favorecer o acesso ao crédito. Tudo isso, os Senhores sabem. É preciso também favorecer os programas regionais. Tomo o exemplo da floresta da bacia do Congo. Trata-se de um programa regional e isso não pode ser simplesmente um programa de um ou outro país, por mais conscientes que estejam de suas responsabilidades.

Por fim, a longo prazo, devemos decidir que o desenvolvimento sustentável e que a agricultura local tornem-se uma prioridade absoluta. Ora, até o momento, nas políticas de ajuda para o desenvolvimento, a agricultura foi negligenciada. Este foi um erro estratégico histórico. É preciso reorientar os créditos para a agricultura de víveres, para a produção local. Esquecer um pouco projetos certamente mais impressionantes, pelo menos na apresentação, e colocar à frente o pacote sobre a agricultura dos países em desenvolvimento. Para isso, são necessários novos métodos.

Nós propomos uma parceria mundial para a alimentação e a agricultura, que teria como base três pilares.

O reforço da coordenação internacional.

Senhoras e Senhores, Caros Amigos,
Não podemos mais possuir organizações internacionais que, ao mesmo tempo, fazem políticas que não são absolutamente complementares, quando não são contraditórias. Se eu tivesse tempo, daria detalhes, mas parece-me importante que se crie um grupo internacional sobre a segurança alimentar, de modo a que todas as instituições internacionais, todos os Estados, todas as empresas, todas as ONGs caminhem no mesmo sentido. E esse grupo teria a função de definir uma estratégia mundial para a segurança alimentar.

O segundo elemento é que eu acho necessária a criação de um grupo internacional de cientistas vindos do mundo inteiro, representando todas as disciplinas envolvidas, um pouco com base no modelo do que foi feito com o GIEC em relação ao clima. Finalmente, isso não foi tão ruim. Porque depois que o GIEC foi reagrupado, ninguém mais contesta as análises. Será que não existe interesse em se criar um grupo de cientistas que faça um diagnóstico objetivo, região por região, e que alerte a respeito dos riscos de crise? É claro que a FAO manteria seu papel, mas que pelo menos pudéssemos, nós, chefes de Estado e de Governo, basear-nos numa análise científica mundial, objetiva e incontestável.

O terceiro pilar, por fim, seria mudarmos de escala em matéria financeira, na luta contra a extrema insegurança alimentar. Acho que é preciso que todo mundo empenhe-se nisso. A França aplicará um bilhão de euros para o desenvolvimento da agricultura na África, a África do sul do Saara, durante os próximos cinco anos. É preciso que os fundos soberanos tornem-se atores do financiamento dos investimentos na agricultura que são, ainda por cima, investimentos rentáveis. Com relação aos fundos soberanos, existe portanto um imperativo moral de se participar da salvaguarda alimentar do planeta e, ao mesmo tempo, um interesse financeiro de se investir num mercado que é promissor e sustentável.

A França propõe, enfim, que seja criada uma facilidade mundial pela segurança alimentar. Essa facilidade seria abrigada pelo FIDA [Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola] de modo que esse financiamento torne-se mais fácil e mais acessível. Eu gostaria de dizer uma coisa: o financiamento existe muitas vezes, mas não está disponível porque é excessivamente complicado, excessivamente aleatório e excessivamente difícil de se obter.

Senhoras e Senhores,
Tenho realmente a sensação de que é um pouco estranho vir aqui, falar sobre esse assunto e ir embora. Mas, ao mesmo tempo, se não viermos, se não falarmos, nada se resolverá. Eu gostaria que todos compreendessem que a rapidez de meu discurso em nada diminui gravidade da situação e a vontade que a França tem, e a Europa como um todo, de engajar-se a serviço desse gigantesco desafio: garantir alimento para todos os habitantes de nosso planeta. Este encontro é um encontro fundamental porque, se as pessoas estão morrendo em seus países, nos nossos, elas não serão felizes porque todo o equilíbrio do mundo é que se encontrará subvertido. Existem portanto, de um lado, os interesses do Sul e, do outro, os interesses do Norte. Existem interesses comuns de dirigentes do planeta que devem zelar pela paz e pela estabilidade. Não haverá paz e estabilidade se não colocarmos todo o dinheiro necessário a serviço do desenvolvimento da agricultura dos países que dele necessitam.

Muito obrigado.

 

 
 

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