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Europa

LEI CONSTITUCIONAL PERMITINDO A RATIFICAÇÃO DO
TRATADO DE LISBOA PELO PARLAMENTO

DISCURSO DO PRIMEIRO-MINISTRO FRANCÊS, FRANÇOIS FILLON

Versalhes, 4 de fevereiro de 2008


Senhor Presidente do Senado,
Senhor Presidente da Assembléia Nacional,
Senhoras e Senhores Deputados e Senadores,

60 milhões de franceses em um mundo aberto e caótico de mais de 6 bilhões de habitantes: deve-se reconhecer que nossa nação tem seu lugar na Europa. Ela tem aí seu futuro, sua vocação e suas maiores esperanças. A França precisa da Europa para prolongar seu talento inventivo e a Europa precisa da França para aprofundar sua singularidade política.

O mapa do mundo está coberto de novos desafios. Um desafio, o excepcional aumento do poder dos continentes asiático e indiano, cujas forças atropelam nossas heranças. Um desafio, a predação ecológica que desorganiza os equilíbrios naturais da vida terrestre. Um desafio, o olhar de uma África que se volta para as riquezas do Norte. Um desafio, essa convivência de civilizações que o mundo de hoje empenha-se em, ao mesmo tempo, aproximar e opor.

Neste mundo fascinante e instável, a França não está condenada a calar-se e submeter-se. Ela não deve escolher o caminho do fechamento, sob a pena de ser afastada do caminho da História. A Europa empresta-lhe a sua riqueza, seus países-parceiros, seus quinhentos milhões de homens e mulheres. Ela amplia as ambições de nosso país às dimensões de um continente. Para continuar tendo peso neste mundo que corre sem referências, a França deve endossar sem reservas seu papel de animador europeu.

Há dois anos, nós rejeitamos um texto que proporcionava à aventura européia um quadro constitucional. Essa foi a escolha dos franceses. Ela tinha que ser respeitada! Mas não podemos ignorar que nós jogamos uma Europa que tinha esperança em nós no espanto e na confusão. Não havia um plano “B”. A União Européia, portanto, imobilizou-se e os olhares estavam voltados para nós. Ao dizer “não” ao texto constitucional de 2005, havíamos contraído uma dupla responsabilidade com relação a nós mesmos e à Europa: a de relançar o mais rapidamente possível o impulso que havíamos interrompido.

No fundo, o referendo de 2005 dava-nos uma vantagem para chegarmos lá: ele nos mostrou, em negativo, qual Europa os franceses desejavam.

O que os franceses haviam recusado era, primeiramente, a natureza constitucional do texto e a sombra de uma Europa federal que ela projetava. Se os franceses queriam a Europa, eles pediam que ela fosse definida em seu exato nível: dentro do respeito aos parlamentos nacionais. Dentro do respeito às diferentes tradições sociais e públicas. Dentro do respeito, finalmente, ao princípio da subsidiariedade que sempre foi, a meu ver, a chave mestra da estrutura européia.

A segunda perspectiva que os franceses temiam era a instalação de uma Europa impotente e poderosa. Na complexidade do texto constitucional, surge uma ameaça. A de uma Europa incapaz de mobilizar seus 27 membros em torno de um projeto, paralisada por mecanismos de decisão inadequados à sua nova proporção. Os franceses tiveram medo de ser engolidos e não seria inconveniente dizer que o Tratado de Nice os confortava em sua desconfiança. A lição é histórica. Os franceses não têm medo da reforma, desde que esta vá ao cerne das coisas. Os franceses não têm medo da Europa, desde que esta seja capaz de agir.

A respeito desses dois pontos, Nicolas Sarkozy correspondeu à sua vontade de maneira resoluta, constante e transparente. Seus compromissos de campanha traçaram o único caminho capaz de transcender as clivagens:

- negociar com todos os nossos parceiros europeus um novo tratado, que opere as evoluções institucionais indispensáveis;

- levar em conta, nesse tratado, os temores expressos pelo “não” majoritário;

- e, finalmente, fazer com que esse texto seja aprovado rapidamente pelo Parlamento.

Ninguém pode contestar a clareza da estratégia do Presidente da República no sentido de relançar a Europa. Ninguém pode reprová-lo por ter feito precisamente o que havia precisamente dito que faria. Ninguém pode acusá-lo de não ter se esforçado para unir o campo do “sim” e o do “não”. E, àqueles que, por razões de forma, contestam as modalidades de aprovação do Tratado de Lisboa pela via parlamentar, e àqueles que, por razões de fundo, opõem-se a esse Tratado, faço uma pergunta simples: Vocês querem realmente relançar a Europa, ou preferem que seja enterrada?

A estratégia do Presidente da República recebeu o apoio dos europeus, depois de ter recebido o da maioria dos franceses. A seu convite, e de Angela Merkel, Presidente da União Européia, 27 países vieram inscrever em um novo texto suas esperanças de paz, cooperação e integração. O Tratado de Lisboa corresponde às nossas responsabilidades para com essa Europa. Ela corresponde aos nossos deveres para com os franceses. Em substituição ao bloqueio e à oposição, ele apresenta a síntese e a iniciativa. Ao votar a revisão constitucional submetida hoje ao Congresso, vocês permitem que a França torne-se o quarto país a ratificar o Tratado de Lisboa. Essa revisão nos é encomendada pela decisão do Conselho Constitucional de 20 de dezembro passado, a fim de autorizar um certo número de transferências de competências em direção à União e ampliar os poderes de nosso Parlamento

Já tive a oportunidade, tanto na Assembléia Nacional, quanto no Senado, de lhes apresentar o seu conteúdo e enunciar as disposições do tratado. Esse tratado adapta e completa os tratados precedentes, sem colocar-se acima deles, não sendo portanto uma constituição. Ele reconhece, de maneira explícita, o controle de subsidiariedade que cabe aos parlamentos nacionais com relação à Comissão. Ele garante a competência exclusiva de cada Estado na definição de sua segurança nacional; o papel determinante de suas autoridades na organização dos serviços públicos; a missão dos parceiros sociais de cada país na defesa de suas tradições e de suas ambições sociais. Ele preserva assim, por toda parte em que nos pareçam intangíveis, nossas exigências de liberdade.

Mas, acima de tudo, o Tratado de Lisboa dá novo corpo ao sonho francês de uma Europa atuante e eficiente. Ao prever a eleição de um Presidente do Conselho Europeu, ele oferece a essa instituição uma força e uma estabilidade que lhe faltavam. Em sua política externa, ele concede ao seu Alto Representante os meios necessários. Ao seu Parlamento, ele confere poderes reforçados. Aos seus procedimentos de decisão, uma flexibilidade maior através da extensão do campo da maioria absoluta e uma democracia reforçada graças a uma melhor consideração da população de cada país. Aos seus valores, ele institui uma carta dos direitos fundamentais. A uma Europa mais ampla e mais numerosa, ele devolve a capacidade de determinar-se e eu não posso, neste instante, deixar de pensar no general de Gaulle, que, há mais de quarenta anos, convidava-nos a refletir a respeito de uma Europa mais ampla. E eis que esta é uma realidade, no âmbito de uma União que, não contente por ter instaurado a paz em nosso continente, contribuiu para fazer com que caísse a “cortina de ferro” e fossem libertados nossos irmãos europeus. 27 nações voluntária e livremente unidas, sem tiros ou qualquer outra pressão, unicamente por força de um projeto e um ideal comuns.

Senhoras e Senhores Parlamentares,

Na história humana, nenhum empreendimento é comparável a este. Mas este empreendimento não pode assumir plenamente seu sentido senão ao se inscrever em um objetivo político. Essa convicção inspira a França há mais de cinqüenta anos. Nem a integração econômica, nem a integração financeira serão suficientes para enfrentarmos o mundo complexo, percorrido por rupturas súbitas no qual a Europa deve hoje escolher seu lugar. Nem a riqueza ou sua população colocarão a Europa acima dessas linhas de fratura que a demografia, a corrida pelas matéria primas, os enfrentamentos étnicos, as tensões religiosas e os desequilíbrios ambientais encerram atualmente pelo globo. Permitam-me repetir aqui uma antiga convicção pessoal. Quanto mais essas fraturas se acusarem, mais o valor de um espaço europeu de estabilidade, diálogo e decisão se fará sentir. O futuro da União não depende mais senão de uma coisa: de sua capacidade para definir e projetar uma visão política original.

A Europa, Senhoras e Senhores, já experimentou os benefícios que se pode extrair de uma vontade expressa em comum.

Ao término da segunda guerra mundial, ela realizou o prodígio de romper com mil anos de conflitos armados, mobilização permanente, confrontos sangrentos. Será que já avaliamos o alcance desse sucesso? Graças à Europa, nós desfrutamos todos os dias, há sessenta anos, daquilo que permanece, para tantas regiões do mundo, como uma utopia ainda muito distante. Por toda parte ainda, homens e mulheres morrem sonhando com o que é para nós uma coisa adquirida, uma garantia, uma evidência.

Desde o início, a Europa quis prevenir-se contra as crises econômicas e monetárias que haviam marcado a primeira metade do século. Ela fundamentou em suas políticas comuns – agrícola, industrial e aduaneira - uma prosperidade duradoura, amplamente compartilhada no seio de seu espaço continental.

Hoje, com o Tratado de Lisboa, a Europa reencontra esse “direito de querer”. Ela recupera o poder de colocar sua potência a serviço de suas políticas prioritárias. Política comum para a energia e o meio ambiente. Política comum para a política externa e de defesa. Política comum de imigração e co-desenvolvimento são os grandes projetos em torno dos quais os europeus estão reunidos. E o Tratado de Lisboa nos oferece a possibilidade de concretizá-los

O que está em jogo é nossa capacidade de promover um modelo de sociedade.

Uma sociedade européia existe – que ela seja chamada de cultura, herança, ou civilização, pouco importa! O essencial, a meu ver, é sentirmos a sua força e o seu preço. Ela atribui aos nossos parentescos europeus sua evidência. Ela está enraizada em um passado de experiências e leituras comuns. Ela nutre-se dos contatos permanentes entre nossos patrimônios artísticos, filosóficos e morais. Sim, morais também, pois existe na civilização européia mais do que a evocação sentimental de alguns monumentos, alguns textos e símbolos compartilhados: existe um repertório de valores que, nas fronteiras da União, sinalizam nossa diferença. O humanismo. A tolerância. A liberdade de consciência. O indivíduo visto como referência de toda e qualquer justiça. O Estado de direito, único fundamento legítimo do poder. O reconhecimento do direito do trabalho e de um direito ao trabalho. A solidariedade como uma responsabilidade pública. A consideração concedida à força do saber e às transmissões familiares e espirituais. A confiança colocada na ciência, na inovação industrial e no progresso. O apreço ao mercado, contexto onde são valorizados pela livre concorrência o capital e o talento. Esses traços dizem onde começa e desabrocha a Europa. Eles dizem onde a experiência européia encontra os modelos concorrentes e onde se distingue deles.

Senhoras e Senhores,

A Presidência Francesa da União Européia dará ao nosso país a responsabilidade de conduzir a Europa. Nós a assumiremos com a seriedade e o entusiasmo de uma nação cujo orgulho nacional conjuga-se com o de seus parceiros. Cabe-nos ser os promotores e embaixadores de um modelo europeu de desenvolvimento.

Muitos países e regiões esperam de nós – da Europa e, em particular, da França – que um parceiro atento e inventivo arbitre com sua influência os equilíbrios do mundo.

A votação que ocorrerá agora, Senhoras e Senhores Deputados e Senadores, não é apenas uma votação pela França e pela Europa. Trata-se também de uma votação que distingue os atores dos espectadores da História.

 
 

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