Ministério das Relações Exteriores.

Imprensa escrita: o desafio digital

A versão eletrônica do jornal Le Monde está em primeiro lugar entre os sites de
informação franceses.

Com a chegada da Internet à área da informação, a imprensa tradicional está, particularmente na França, diante de um questionamento de seu modo de produção e de funcionamento. Um relatório encomendado pelo Estado francês incita os jornais a reagirem rapidamente.

Muitos observadores, na França e no mundo, acreditam ser inevitável o declínio dos jornais e que eles não tardarão a desaparecer de uma vez..... Marc Tessier, ex-diretor da empresa pública audiovisual France Télévisions, não está tão pessimista. No relatório escrito em parceria com Maxime Baffert (inspetor de finanças) em fevereiro de 2007, sob encomenda do Ministério da Cultura e Comunicação, é analisada a situação da imprensa quotidiana de atualidades na era digital, dando algumas pistas para a reflexão e a ação.

Ele parte da seguinte constatação: “o aparecimento das tecnologias digitais está revolucionando não somente a economia das empresas tradicionais do setor, mas também os modos de organização, estruturas e conteúdos.” Para ele, “a imprensa deveria ter uma permanente capacidade de adaptação em um contexto concorrencial que se renova sem cessar. De agora em diante, não é exagerado se falar em uma época de refundação da imprensa.”

De fato, se as empresas de comunicação digital nunca estiveram tão bem a partir da explosão da Internet de banda larga, o setor da imprensa, especialmente a quotidiana e nacional, apresenta um quadro sombrio na França: circulação em baixa, audiência idem, os recursos oriundos da publicidade em estagnação e dirigindo-se cada vez mais para os novos meios como os sites Internet. O número de pontos de venda também recua. O digital age como um “catalisador das mudanças e revelador das fraquezas da imprensa”, como consta no relatório.

Novos produtores de informação

Por causa da multiplicação dos blogs (sites pessoais interativos), dos podcasts (que permitem diretamente o download de arquivos multimídia áudio e vídeo em um aparelho portátil), dos conteúdos feitos em colaboração (como a enciclopédia Wikipedia, alimentada pelos internautas, ver Label n° 67), ou ainda dos pure-players (sites de atualidades acessíveis unicamente por Internet), a imprensa perdeu o monopólio da informação. Além do mais, ainda não encontrou um modelo econômico estável neste novo universo da informação “gratuita e permanente”.

“A imprensa deve enfrentar o desafio digital” antes que seja tarde demais, é o alerta dado pelos autores do relatório, se quiser preservar as exigências da profissão de jornalista no que tange à deontologia e ao tratamento da informação (verificação das fontes, hierarquia dos assuntos, pontos de vista e análise mais aprofundada). Como? Integrando conteúdos multimídia, estimulando uma participação mais ativa dos internautas, como no site madepeche.com, site do quotidiano La Dépêche du Midi. Em suma, deixando para trás a era dos sites que eram mera extensão da versão impressa. Isto foi muito bem compreendido pelo quotidiano Le Monde: a cópia ou retomada de artigos publicado na versão impressa não ultrapassava 10% do conteúdo total do site em dezembro de 2006, contra cerca de 30% no início do mesmo ano.

Nessa perspectiva, o relatório propõe uma ajuda do Estado à imprensa e a adequação do enquadramento legal e fiscal que leve em conta estas novas práticas. Lança também a idéia de um possível selo de qualidade para os sites que respeitem certas normas. É preciso não esquecer que os sites de imprensa respondem por 50% da audiência dos sites de informação na França. O site do Monde chega a ultrapassar até mesmo os poderosos difusores de informação francês e americano Yahoo e Google Atualidades.

A conclusão do relatório é que, por causa do advento do digital “a imprensa tem uma oportunidade de se reinventar e uma nova frente de crescimento e desenvolvimento”, “se souber aproveitar as oportunidades e tiver os meios para tanto”.

Olivia Marsaud, jornalista


Rua89: em direção a um jornalismo em rede?

Rua89 é aquilo que é denominado um pure-player, um site de atualidades transmitido unicamente por Internet. Seu projeto é “casar o jornalismo profissional com a cultura participativa da Internet” e gostaria de ser o “laboratório de uma nova linguagem jornalística”, como explicam seus criadores, quatro ex-jornalistas do diário nacional Libération, Pierre Haski, Pascal Riché, Laurent Mauriac e Arnaud Aubron, e continuam dizendo que “Rua89 nasceu da constatação de que, na efervescência criativa da Web, era necessário oferecer um serviço totalmente independente, que se conformasse aos critérios profissionais e deontológicos do jornalismo e, ao mesmo tempo, fosse aberto às contribuições de não-jornalistas e à participação ativa dos internautas”. Qualquer um pode enviar sua contribuição que será em seguida selecionada “em função de seu interesse, pertinência e qualidade” por uma equipe de uma dezena de jornalistas profissionais. A participação dos leitores acontece também através dos comentários e avaliações das matérias publicadas. O acesso ao site é gratuito e financiado pelas receitas oriundas da publicidade.

Inaugurado no início de 2007, o site rivaliza hoje com aqueles já bem conhecidos do público. Ele atraiu mais visitantes que o site do La Croix no mês de seu lançamento. Informação em tempo real, artigos atualizados e modificáveis em permanência, envolvimento crescente dos internautas na produção e difusão da informação... eis um belo exemplo deste novo jornalismo em rede que combina profissionais com amadores e modifica os tradicionais códigos da imprensa. E é assim resumido pelo slogan de Rua89 “Sua revolução da informação”.

O.M

Para saber mais:

www.rue89.com
www.lemonde.fr
www.lefigaro.fr
www.liberation.fr
www.lacroix.fr
www.lesechos.fr
www.nouvelobs.com
www.lepoint.fr
www.lexpress.fr

 

Entrevista com a diretora geral do Mundo Interativo, Dao Nguyen

“O impresso ainda tem um belo futuro”

Principal site de informações francês, lemonde.fr atraiu cerca de 9 milhões de visitantes em maio de 2007 e 90.000 assinantes. Uma redação autônoma de 35 pessoas trabalha nele.

Qual é o valor agregado do monde.fr em relação à edição impressa?

Oferecer a informação atualizada ao longo do dia e basear-se em uma linguagem multimídia: a informação é tratada nos artigos escritos e nas fotos, mas também nos vídeos, nas gravações e nas infografias animadas. A Internet favorece também o desenvolvimento da interatividade e permite o acesso a vinte anos de arquivos do jornal, ou seja, mais de um milhão de artigos que podem ser consultados no site. Ele permite que o jornal atinja um maior público: 30% dos internautas que o consultam moram fora da França e 60% dos que o consultam na França têm menos de trinta e cinco anos. O site serve para manter o elo com a “marca” Le Monde, mas também para criá-la.

A senhora acredita que os jornais deverão, com o tempo, tornar-se exclusivamente “eletrônicos”?

Os jornais impressos têm ainda um belo futuro diante deles! A Internet é a mídia da reatividade, mas o impresso mantém seu lugar de mídia de análise, apoiando-se em inúmeras vantagens: legibilidade, facilidade para ser compartilhado, grande formato, hábitos de leitura muito estabelecidos...

Entrevista feita por Olivia Marsaud