| Entrevista
com o historiador Jean-Yves Mollier
“O ato
de ler continuará a progredir”

“O
livro não depende de um suporte, ele
existiu na Antigüidade sob a forma de
rolo, depois sob a forma de um caderno e no
futuro ele existirá sob a forma de
tela plana. Mas o livro, em si, não
vive uma retração”.
Estariam
os livros ameaçados por telas e monitores?
Nosso quotidiano teria sido invadido a tal
ponto pelas novas tecnologias que estas poderiam
suplantar nossas bibliotecas e reduzir assim
nosso campo intelectual? Jean-Yves Mollier,
historiador do livro e da leitura(**),
não cai no pessimismo, pelo contrário,
vê alguns sinais encorajadores. As Letras,
que historicamente acompanham a cultura francesa
chegando mesmo a lhe dar forma, ainda têm
belas páginas para escrever.
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Label France: Qual
é o lugar específico
da escrita, das letras, dos livros
para a identidade cultural francesa?
Jean-Yves
Mollier: A
escrita ocupa uma posição
fundamental na cultura francesa, pois
foi a escola que fixou as bases do
cânone literário e forjou
o panteão desta cultura a partir
da segunda metade do séc. XIX.
Os heróis literários
da Volta ao Mundo por Duas Crianças,
de Madame Fouillée, publicado
em 1877 e reeditado mais de 400 vezes,
inspiraram várias gerações
de estudantes. A identidade cultural
da França como "mãe
das artes" também deve
esta relação aos grandes
escritores nacionais, que se tornaram
modelos a serem imitados por outras
culturas nacionais. Os romances publicados
em forma de folhetim pela imprensa,
também contribuíram
para a popularidade de Honoré
de Balzac, Victor Hugo, etc.
Label France: Como
se explica esse atual paradoxo: a
produção editorial é
cada vez maior, enquanto os resultados
das pesquisas parecem indicar uma
baixa dos "grandes leitores"?
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J.-Y.
Mollier: É
verdade que o número daqueles
que lêem mais de 25 livros por
ano vem sistematicamente diminuindo
ano após ano, porém
o número de outros leitores
continua aumentando. Além do
mais, todas as pesquisas mostram que
é cada vez maior o número
dos freqüentadores de bibliotecas.
A França
tem 65 milhões de habitantes.
Em 2006, foram vendidos 450 milhões
de volumes e 200 milhões foram
emprestados em bibliotecas. Resultado:
10 livros por ano, comprados ou emprestados
por cada francês. É muito.
Esses números nunca ocorreram
antes. Não há, pois,
crise da leitura.
Label France: O impresso estaria
ameaçado pelos monitores?
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J.-Y. Mollier:
É incontestável que as
novas tecnologias, tais como as telas
planas, que estão se tornando
cada vez mais finas, o papel eletrônico(1),
a tinta eletrônica(2),
o “pen drive”, que nos permite
transportar uma imensa biblioteca, terão
um lugar cada vez maior. Porém,
isso não vai liquidar o escrito.
Vai simplesmente reduzir seu espaço.
Numa
jornada de 24 horas, continuaremos a
ler os impressos em papel (quotidianos,
revistas semanais e mensais), assim
como ouviremos o rádio, assistiremos
à televisão, utilizaremos
um computador e leremos livros. O livro
não depende de um suporte, ele
existiu na antigüidade sob a forma
de rolos (volumen), em seguida como
um caderno (codex), amanhã, na
forma de um fino monitor. O livro em
si não recua.
Aliás, Internet e telas planas
não ameaçam o princípio
da leitura mas, sim, o conteúdo
das leituras. É deles que virão
as mudanças, mesmo que a leitura
ou o ato de ler continue em progressão,
inclusive nos telefones celulares.
Devemos
admitir, entretanto, que a organização
do pensamento não seja tão
boa quando utilizamos estes tipos de
monitores. A leitura e os livros permitem,
e isso é de suma importância,
uma distância em relação
ao conteúdo da informação,
recuo esse que deixa de existir nas
outras mídias. O livro permite
voltar ao texto, operação
não corriqueira quando se trata
de uma informação transmitida
pelo rádio ou pela televisão.
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Label
France: Não existe o perigo de
vermos o "patrimônio"
definido por aquilo que é mais
consultado ou mais lido na Internet,
fato este que causaria a redução
de certo número de "clássicos"?
J.-Y. Mollier:
Você acaba de apontar um
dos problemas-chaves do futuro: os famosos
motores de busca, que eu chamaria de
pedágios para o uso das auto-estradas
de comunicação e informação.
Se o motor não tiver integrado,
por exemplo, um poema muito raro de
um mandarim chinês do séc.
XII antes de Jesus Cristo, jamais o
encontrarei. Seria preciso que os poderes
públicos refletissem a respeito
da criação de motores
auxiliares, que poderiam vir das grandes
bibliotecas nacionais, da Unesco, por
que não da ONU, um belo dia,
com a finalidade de ser o mais completo
possível com relação
à diversidade cultural.
Label France: Existe uma forma de censura
econômica que consiste em vender
unicamente os autores com maior probabilidade
de venda. Não é este o
verdadeiro perigo?
Jean-Yves Mollier:
Certamente. A censura do mercado é
hoje o ponto mais sensível. Não
se trata de uma censura imposta. Porém,
a partir do momento em que seus critérios
são quantitativos e/ou só
visam a rentabilidade, eles selecionam
os produtos que acreditam poder assegurar
esta rentabilidade. O mercado seleciona
aquilo que é capaz de gerar lucros.
Entrevista
realizada por Gilles Heuré,
jornalista da revista semanal de cultura
Télérama.
Para saber mais
• Jean-Yves Mollier (dir.),
Où va le Livre? (Aonde
irá o Livro?) editora
La Dispute, 2007.
• Guglielmo Cavallo e
Roger Chartier (dir.), Histoire
de la Lecture dans le Monde
Occidental (História
da Leitura no Mundo Ocidental),
editora du Seuil, Paris, 1997.
• Henri-Jean Martin, Les
Métamorphoses du Livre
(As Metamorfoses do Livro),
entrevistas com Jean-Marc Chatelain
e Christian Jacob, ed. Albin
Michel, Paris, 2004.
• O site do Instituto
da História do Livro:
• Instituto de Pesquisa
e História dos Textos:
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(**)
Jean-Yves Mollier ensina história
contemporânea na universidade
de Versailles-Saint-Quentin-en-Yvelines.
(1).
Papel eletrônico, espécie
de membrana flexível quase da
mesma espessura que uma folha de papel
que permite o “download”
de várias centenas de livros.
A tecnologia já está pronta,
a comercialização é
que está engatinhando (deve acontecer
até 2010). Esta revolução
poderia atingir tanto as editoras quanto
a imprensa.
(2).
A tinta eletrônica é composta
de pigmentos que reagem a estímulos
elétricos. Apresentam um melhor
contraste, portanto melhor legibilidade
do que hoje com cristais líquidos
sobre uma tela exibindo textos, fotos
ou vídeos. |
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