Ministério das Relações Exteriores
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| Palavra
de escritor
“Que
lugar os livros ocupam em sua vida?”
Foi a pergunta que fizemos a dez autores –
e leitores apaixonados – no auge da
temporada literária de 2007.
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Olivier Poivre d’Arvor
Uma atividade febril e saudável
Os livros atravessaram
séculos para dirigirem a nós
suas palavras e suas formas, tão
indispensavelmente arcaicas. O patrimônio
nada é, entretanto, sem a criação
para enriquecê-lo cotidianamente.
O milagre de todos esses livros que
são escritos pelos quatro cantos
do mundo, em dezenas de línguas,
por tantos autores que são
lidos, trocados, comprados, emprestados,
são copiados uns dos outros
e são distintos. Esta atividade
febril e saudável das mãos,
dos pulsos, dos dedos sobre os teclados
prolongados por monitores, entre penas,
canetas, esta intensa escrita do mundo
que se transforma em “livro”,
eis um dos mais belos milagres da
humanidade. Com os livros, percorri
caminhos, com os livros encontrei
companhia, com os livros me fiz homem,
escolhi ouvir e me fiz ouvir, com
os livros finalmente disse “eu”.
Com os livros aprendi a me compreender.
Lendo, optei por ouvir os outros e
suas vozes marcaram minhas consciência
e memória. Jamais um livro
me traiu. Um livro sempre me fez falta,
aquele que talvez escreva um dia,
extirpando-me de mim mesmo.
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Olivier
Poivre d’Arvor é o diretor
de Culturesfrance (operador cultural
da França no exterior) e acaba
de publicar pela editora Albin Michel
J’ai Tant Rêvé de
Toi (Sonhei Tanto com Você), um
novo romance em parceria com seu irmão,
Patrick Poivre d’Arvor, apresentador
de sucesso do canal de televisão
privado TF1. |
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Chantal
Thomas
Uma partida
A
estrada que leva ao aeroporto de Nice
e o próprio aeroporto estão
construídos de tal maneira que
até o último minuto não
deixamos de ver o mar. É só
ao erguer os olhos acima do mar que
me vejo no controle de bagagens. Pego
minha bolsa de viagem e meu computador.
Um funcionário me chama para
mais uma verificação.
Está a ponto de abrir as bagagens
quando depara com o livro que está
em minha mão: Nietzsche e a Filosofia,
de Gilles Deleuze. Imediatamente pega
o livro, abre, folheia, com o rosto
transfigurado. “Trata-se de Freud,
não?” me pergunta. “Eu
o li faz muito tempo. É extraordinário,
um outro mundo. Um mundo que dá
medo...”. Ele me deixa passar,
apesar da bomba mental que carrego comigo.
Mais tarde, em pleno vôo, penso
nessas palavras: “um outro mundo”,
e de que forma esse momento mágico
que é a leitura pode facilmente
ser esquecido ou banalizado. Com os
livros, não só não
paramos de viajar bem longe, mas é
nosso próprio mundo que parece
– subitamente – mais rico,
complexo, carregado de histórias
e mistérios, cheio de possibilidades.
Não todos os livros, é
claro. Aqueles que dão força
e mostram o caminho.
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Filósofa
e historiadora, especialista em séc.
XVIII, Chantal Thomas começou
publicando ensaios bem recebidos, notadamente
sobre Sade e Casanova. Recebeu, em 2002,
o prêmio Femina, graças
a seu primeiro romance dedicado à
rainha Maria Antonieta (O Adeus à
Rainha, ed. Seuil, traduzido para cerca
de vinte línguas). É também
autora de narrativas muito mais pessoais
(Souffrir, Sofrer, ed. Rivages, 2003)
pondo em cena suas próprias leituras.
Ensina em várias escolas americanas.
Seu próximo romance, Cafés
de la Mémoire (Cafés da
Memória) será lançado
em fevereiro de 2008 pela editora Seuil.
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Jérôme
Garcin
Ler é viver
Será
porque tive o privilégio de
nascer num berço de papel?
Foi porque conheci muito cedo a dor
de perder um pai editor cujos vestígios
sempre busquei em minha biblioteca?
Não sei. Desde sempre, minha
relação com os livros
é um caso patológico.
Não posso viver, viajar, adormecer,
amar, respirar sem eles. Cotidianamente,
em minha bolsa, há ao menos
dez grossas e finas, antigas e modernas
brochuras ou provas. Eu anoto, sublinho,
prolongo, maltrato as páginas
e massacro as capas. Sou um leitor
compulsivo. Não conheço
(e me censuro por isso) as doçuras
do far-niente, a virtude de esquecer
o tempo durante o tempo de um romance,
a graça de se repousar num
ensaio como, chegado o verão,
numa casa de campo. Devoro. Absorvo.
Pareço-me com aquela publicidade
dos anos 50, na qual se via Gérard
Philipe morder, com seus belos dentes
brancos, um buquê de páginas
impressas. É bem menos intelectual
e muito mais físico do que
se poderia crer. Talvez venha daí
minha paixão pelo estilo, meu
gosto pela própria matéria
da frase, minha atração
pelo corpo do texto, minha convicção
flaubertiana de que a literatura é
algo de sólido. E o leitor,
um perpétuo famélico.
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Jérôme
Garcin dirige a rubrica de Cultura da
revista semanal francesa Le Nouvel Observateur,
dirige um programa de rádio muito
ouvido, “Le Masque et la plume”,
dedicado aos livros, ao teatro e ao
cinema na estação pública
de rádio France Inter. É
também autor de vários
romances, entre os quais Les Sœurs
de Prague (As Irmãs de Praga
publicado em 2007 pela Gallimard). |
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Lydie
Salvayre
A vida sem os livros seria nada mais
do que um equívoco
Nasci
num livro. Não, não é
uma metáfora. Nasci para mim
lendo. Nasci para a recusa, para o excesso,
para os enigmas, nasci para o incompreensível
das coisas, nasci para aquilo que chamam
de vida interior graças a um
livro. Tinha dez anos. Eu me lembro.
O nome do livro era Sem Damília
[de Hector Malot].
Pertenço aos livros. Todas as
outras relações de pertencimento
me encerram e reduzem. O solo, o sangue,
a raça, a família me causam
horror.
Pertenço aos livros. Àqueles
que li na infância. Aos que marcaram
as fases de minha vida. Pertenço
aos livros de Cervantes, Rabelais, Pascal,
Faulkner, Bernhard. E pertenço
também aos livros que não
li e que fundaram a língua que
falo, seu espírito, suas cores,
sua velocidade.
Pertenço aos livros. Quando o
mundo é um caos, os livros me
descansam. Quando a vida não
faz mais sentido, dela os livros sabem
rir.
Não tendo nenhum deus que me
acolha, nenhum mestre que me guie, nenhuma
raiz que me retenha, temo ser esmagada
pela imanência das coisas. Então,
a voz inquieta dos grandes livros me
conduz a um desconhecido que me chama
e mantém viva minha marcha adiante.
Leio. Vivo. A vida sem os livros seria
nada mais do que um equívoco.
Não posso imaginar minha vida
sem os livros. É como uma existência
sem segredo. Como o dia sem a noite.
Os livros são meu dia e minha
noite.
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O
espanhol foi sua língua materna.
Lydie Salvayre passou sua infância
na França onde estudou medicina.
Paralelamente a sua atividade de psiquiatra,
publicou romances que foram destaque.
O último, Portrait de l’Écrivain
en Animal Domestique (Retrato do Escritor
como Animal Doméstico, editora
Seuil, 2007), evoca com ironia e num
tom acerbo as relações
ambíguas de uma autora e de um
riquíssimo homem de negócios
à frente de uma multinacional,
que lhe encomenda uma obra. |
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Gilles Lapouge
A lojinha dos milagres
Será
porque tive o privilégio de
nascer num berço de papel?
Foi porque conheci muito cedo a dor
de perder um pai editor cujos vestígios
sempre busquei em minha biblioteca?
Não sei. Desde sempre, minha
relação com os livros
é um caso patológico.
Não posso viver, viajar, adormecer,
amar, respirar sem eles. Cotidianamente,
em minha bolsa, há ao menos
dez grossas e finas, antigas e modernas
brochuras ou provas. Eu anoto, sublinho,
prolongo, maltrato as páginas
e massacro as capas. Sou um leitor
compulsivo. Não conheço
(e me censuro por isso) as doçuras
do far-niente, a virtude de esquecer
o tempo durante o tempo de um romance,
a graça de se repousar num
ensaio como, chegado o verão,
numa casa de campo. Devoro. Absorvo.
Pareço-me com aquela publicidade
dos anos 50, na qual se via Gérard
Philipe morder, com seus belos dentes
brancos, um buquê de páginas
impressas. É bem menos intelectual
e muito mais físico do que
se poderia crer. Talvez venha daí
minha paixão pelo estilo, meu
gosto pela própria matéria
da frase, minha atração
pelo corpo do texto, minha convicção
flaubertiana de que a literatura é
algo de sólido. E o leitor,
um perpétuo famélico.
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Gilles
Lapouge e Bernard Pivot, são
os criadores de “Apostrophes”,
célebre programa da televisão
pública que foi uma referência
em atualidades literárias durante
quinze anos (1975-1990). Autor de várias
obras, em 2007 publicou L’Encre
du Voyageur (A Tinta do Viajante, pela
editora Albin Michel) ele é um
grande conhecedor do Brasil e escreve
regularmente para o jornal brasileiro
O Estado de São Paulo. |
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Marc Levy
Fazer-nos sentir vivos
O
primeiro livro que peguei, às
escondidas, na biblioteca de meu pai,
foi O Leão de Kessel e a primeira
coisa que me veio à mente quando
fechei o livro foi que a garotinha não
tivera medo do leão. Encantava-me
a idéia de um mundo onde os homens
não tivessem medo daquilo que
não fosse igual a eles. Essa
idéia nunca me abandonou, a menininha
de Kessel tampouco. Quantas vezes não
pensei nela quando hesitava em tomar
uma decisão? Quando a diferença
do outro despertava em mim um desconfiança
infundada. Alguns anos depois, a leitura
da obra de Antoine de Saint-Exupéry
me inspirou não apenas o gosto
pela viagem e pela descoberta, mas,
creio que muito mais, um amor e respeito
sem limites pela liberdade. Não
somente a minha, a dos outros também.
Viajei muitos anos, percorri os quatro
cantos da terra, tinha sempre, enfiado
em algum lugar, um livro de Saint-Ex.
Acreditem, o lugar onde se toma posse
de um livro, o horizonte que se revela
quando o olhar se desvia da página,
nem que seja por um momento ínfimo,
afeta nossa percepção
da leitura. Um de meus melhores momentos
como leitor foi quando virava as páginas
de Terra dos Homens enquanto a balsa
onde me encontrava atravessava a baía
agitada de Hong Kong. Nunca me senti
tão livre para sentir. Alguns
anos mais tarde, quando li Clair de
Femme (Luz de Mulher), de Romain Gary,
compreendi quanto a dor de amor mais
intensa tem o mérito de fazer
com que nos sintamos vivos, e as páginas
de um livro podem ajudar a suportar
as cicatrizes que ainda não se
fecharam.
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Desde
o seu primeiro romance, Et Si C’était
Vrai…(E se fosse verdade..., editora
Robert Laffont, 2000), Marc Levy conheceu
um enorme sucesso de público,
que os romances seguintes não
desmentiram: traduzidos em 38 línguas,
venderam um total de mais de treze milhões
de exemplares. Seu sétimo romance,
Les Enfants de la Liberté (Os
Filhos da Liberdade), foi publicado
em 2007 pela Robert Laffont. |
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Linda Lê
Augúrios que devemos ouvir
Os livros
são nossa imortalidade, dizia
Chalamov. Estão plenos de rumores,
são augúrios que devemos
ouvir, sopram o vento da contestação
e conspiram para pôr fim à
nossa tranqüilidade. Quem se
envolver num turbilhão de palavras
carregadas de perguntas será
arrastado por um movimento no qual
a perda precede a reconquista. Abandona
a si mesmo e se reconstrói
melhorado, pois os espólios
recolhidos por esses desvairados da
literatura, que tomaram a linguagem
de assalto para extrair de seus restos
um fermento de paixão –
só serão riqueza se
puderem servir como moeda de troca
nestas expedições no
âmago da estranheza, em que
trocamos nossas certezas por vertigens
e desequilíbrios.
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Linda
Lê nasceu no Vietnã, que
deixou para fugir da guerra. Vive atualmente
na França. Escreveu vários
romances sombrios e exigentes e publicou
em 2007 In Memoriam, pela editora Christian
Bourgois, afirmando uma vez mais a singularidade
de seu mundo. |
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Marie Darrieussecq
Estar só com o mundo entre as
mãos.
Estar
só com o mundo entre as mãos.
“Ler é se ausentar do mundo
ler é retornar ao mundo
ler é estar só com o mundo
entre as mãos
ler é estar só em companhia
dos outros
ler é pensar antes de agir
ler é ter tempo de pensar
ler é imaginar
imaginar é se pôr no lugar
do Outro
ler é um humanismo
ler é estar com o outro e consigo
ler e escrever é o início
do pertencimento ao mundo
todos deveriam poder ler e escrever
em sua língua
ler é estar só e, no entanto,
estar no mundo
Escrever
é responder a essa solidão
sem preenchê-la
sem sequer imaginar que possa se acabar
escrever é enfrentar o vazio
escrever é estar ao lado do leitor
nem em seu lugar nem acima
escrever é contar com a inteligência
escrever é também estar
só
mas não completamente isolado
escrever é procurar o Outro em
si próprio
pode-se fazer disso uma obsessão
pode-se fazer disso uma profissão
pode-se fazer disso um êxtase
escrever é incontrolável
porém é gramatical
escrever é fazer perguntas sem
resposta
escrever é responder a perguntas
não feitas
escrever é recusar as palavras
da concórdia e as da discórdia
escrever é semear a desordem
reavivando a língua
escrever é um humanismo e uma
maldição
escrever me mantém em pé
mas também cava abismos
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Após
brilhantes estudos literários,
Marie Darrieussecq estréia com
sucesso em 1996 com um primeiro romance,
Porcarias (editora POL), traduzido em
numerosos países. Paralelamente
a sua atividade de escritora, decide
tornar-se psicanalista. Seu último
romance, Tom est Mort (Tom Morreu),
foi publicado em 2007 (ed. POL). |
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Laurent Gaudé
As laranjas de Vittorini
Muitas vezes
nos perguntamos se a literatura muda
a vida. Estou convencido disso. Nunca
parou de mudar a minha. Primeiro pela
leitura, depois pela escrita.
Durante
muito tempo não gostei de laranjas.
Não comia nunca. Um dia, li
Conversation en Sicile (Conversa na
Sicília), de Elio Vittorini.
Neste excelente romance, o narrador
volta da Sicília, sua terra
natal, após ter passado a vida
no continente e revê sua ilha
com um novo olhar. Numa passagem do
livro, ele cruza com um pequeno vendedor
de laranjas acompanhado da mulher
e perseguido pela pobreza. A única
coisa que esse homem vende são
laranjas que ninguém compra,
pois são amargas. Essas laranjas
amargas são sua única
riqueza e ele não pára
de maldizê-las.
Passei,
imediatamente, a gostar de laranjas.
Cada vez que como uma, as laranjas
de Vittorini ressurgem em meu espírito.
O pequeno vendedor reaparece e mordo
um pedaço da Sicília.
Este exemplo
pode parecer banal para certas pessoas.
Não para mim. O livro de Vittorini
mudou meus gostos. Ele deu uma história
a essas laranjas, um sabor que faz
com sejam apreciadas. Isso mostra
a que ponto a leitura é encontro,
troca, aprendizado. É por isso
que leio. Por isso escrevo. Só
por isso.
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Apaixonado
pelo teatro, Laurent Gaudé a
escreveu a princípio para o palco
(sua primeira peça, Combats de
Possédés, Combates dos
Possuídos, traduzida em inglês
e alemão, foi encenada em Londres
e Essen) antes de passar com sucesso
para o romance). Le Soleil des Scorta
(O Sol dos Scorta, ed. Actes Sud, 2004)
ganhou o prêmio Goncourt. Publicou
em 2007 Dans la Nuit Mozambique (Na
Noite de Moçambique), sempre
pela Actes Sud. |
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Muriel
Barbery
O júbilo pela leitura
Lembro-me
muito bem do primeiro livro. Não
do primeiro livro lido, mas sim do primeiro
a despertar em mim o júbilo pela
leitura.
Era um volume de Os Cinco, de Enid Blyton.
Sinto ainda em meu corpo a qualidade
e a intensidade dessa leitura: absorver-se
completamente no texto, tornar-se cega
e surda ao mundo, viver a ação,
sentir o campo dos possíveis
se abrir, sentimentos nascerem, a vida
cintilar e se enfeitar com novas cores,
dar nome a sensações desconhecidas,
entrever novas paixões. Fechar
o livro com euforia e pena e esperar
o próximo com ávida impaciência.
E veio o segundo livro. Eu tinha quatorze
anos e nada entendi. Foi, porém,
graças a ele que compreendi,
com estupefato fascínio, que
ler também é sentir o
prazer da língua. Era Ligações
Perigosas, de Laclos e descobri que
a língua não servia somente
para criar mundos e que podia ser um
fim de beleza em si mesmo.
Eis porque, findas as leituras obrigatórias,
leio somente romances, ficção
científica ou histórias
em quadrinhos: a leitura, para mim,
é o momento do encontro do prazer
da língua que eleva à
beleza, com a narrativa que constrói
mundos novos.
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Professora
de filosofia, Muriel Barbery foi a surpresa
da temporada literária do ano
2000 com seu primeiro romance, Une Gourmandise
(Uma Vontade de Comer, editora Gallimard),
traduzido em doze línguas. O
segundo, L’Elégance du
Hérisson (A Elegância do
Porco-Espinho, ed. Gallimard, 2006),
é também um fenômeno
literário: sátira social
e reflexão sobre o sentido da
vida, a história desta zeladora
de prédio esfomeada de cultura
pouco a pouco tocou um imenso público. |
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