Ministério das Relações Exteriores

Festival de Avignon: teatro aos quatro ventos

O autor e diretor congolês Dieudonné Niangouna em sua peça Attitude Clando, apresentada no Festival de Avignon em julho de 2007. Formado em artes plásticas, ele é atualmente a ponta de lança do teatro de seu país.

Há sessenta anos nascia o Festival de Avignon, um dos grandes eventos de arte dramática do mundo.

Grande pela qualidade dos espetáculos que propõe, também é grande por causa da quantidade de seu público: entre 80.000 e 100.000 espectadores, freqüentadores habituais ou recém-chegados, tomam de assalto todos os anos, a partir dos primeiros dias de julho, a pequena cidade do sul da França. A cidade fica como que tomada pelo teatro: em suas ruas, atores e multidões trocam sorrisos cúmplices e folhetos promocionais(1), enquanto trombetas anunciam o início dos espetáculos nos locais mais importantes do Festival.

A história do Festival de Avignon principia no final dos anos 40. Ao final da Segunda Guerra Mundial, que devastou o conjunto do mundo europeu, a França tentou, com os parcos meios disponíveis, retomar sua vida cultural. A organização inédita, em setembro de 1947, de uma semana de arte dramática (não se falava ainda de “festival”), no átrio do Palácio dos Papas(2), fez parte deste movimento de renascimento e renovação.

Foi iniciativa de um casal de donos de uma galeria de arte que se apaixonaram pela região – a Provence – e escolheram este local histórico, praticamente abandonado, para apresentar sua excepcional coleção de obras de arte contemporânea. Aconselhados pelo amigo e poeta René Char, o casal Zervos chamou a nova estrela do teatro francês do pós-guerra, Jean Vilar, para que acompanhasse a exposição, organizando uma semana de representações teatrais ao ar livre, no pátio principal do Palácio dos Papas. Após ter recusado uma primeira vez, Jean Vilar aceitou o desafio, um desafio ainda mais difícil pelo fato de, nas palavras do ator, esse pátio ser “tecnicamente um local teatral impossível” e “a história” estar “excessivamente presente”.

O Ato Desconhecido, de Valère Novarina, autor francês contemporâneo, apresentado no pátio cerimonial do Palácio dos Papas, em 2007.
Esta peça fala da morte e do nascimento do teatro, do ator e da língua.

Um teatro novo

Genial e inventivo, Jean Vilar conseguiu entretanto explorar as dificuldades técnicas do Pátio Cerimonial, transformando-o num maravilhoso espaço para o teatro, onde já foram apresentadas as melhores peças do repertório europeu, de Shakespeare a Büchner, passando por Beaumarchais, Molière, Hugo, Calderón, Goldoni e Beckett. Vilar fez ainda mais, partidário de um teatro popular e de uma arte dramática que “deveriam ser como o gás e a eletricidade”, ao alcance de todos, aproveitou a liberdade outorgada por sua distância da capital e da audácia arquitetônica do local, para inventar um teatro novo, próximo do espectador e em ruptura com as tradições burguesas das salas parisienses.

O sucesso começa já nos inícios dos anos 50 e o Festival torna-se então um dos eventos mais importantes do verão. É particularmente apreciado pelos jovens que vêem no teatro “Vilariano” o fiel reflexo de suas preocupações, sonhos e aspirações, magnificamente interpretados por atores como Jeanne Moreau, Michel Bouquet, Maria Casares, Serge Reggianni, Germaine Montéro e Silvia Monfort, que serão os futuros monstros sagrados dos palcos franceses. Foi nesta época que Gérard Philipe, jovem galã muito popular no cinema, pôs sua energia e entusiasmo a serviço do Festival.

Por duas décadas à frente do Festival de Avignon, Jean Vilar imprimiu sua marca e fixou as diretrizes fundamentais: com o público no “centro”, tornar as grandes obras do repertório europeu accessíveis a todos e abrir este festival de arte dramática a outras disciplinas, como a dança, com Maurice Béjart, a música, sobretudo com Jorge Lavelli, e o cinema, com Jean-Luc Godard.

Expressão de outras tradições

Nos passos do fundador – Vilar morreu em 1971 – seus sucessores (Paul Puaux, Bernard Faivre d'Arcier, Alain Crombecque e os atuais diretores Hortense Archambault e Vincent Baudriller) levaram mais longe a abertura a outras formas artísticas, recebendo em Avignon concertos, exposições, além do circo e do teatro eqüestre.

O Festival também, principalmente a partir dos anos 80, abriu-se para criadores estrangeiros. Hoje, sua programação nada tem a ver com as programações dos anos 50 ou 60, quando se apresentava principalmente o repertório francês. Essa internacionalização permitiu ao público, 90% francófono, a descoberta dos mais importantes coreógrafos contemporâneos (Merce Cunhigham, Pina Bausch), além de práticas teatrais vindas de outros lugares. O próprio Vilar tinha mostrado o caminho, convidando em 1968 o Living Theatre (ver nota no quadro). Em seguida, foi a vez do teatro musical italiano, do nô japonês e do tazieh, drama religioso iraniano. A adaptação, em 1985, da epopéia indiana Mahabharata pela dupla Peter Brook e Jean-Claude Carrière permanecerá na história do festival como um momento mágico excepcional.

Depositário da tradição “vilariana” do teatro popular, o Festival de Avignon continua a se renovar e reinventar todos os anos. “O ato é virgem, mesmo se repetido”, nas palavras de René Char. Este foi o lema da edição de 2007 do Festival.

Tirthankar Chanda, jornalista

Hortense Archambault e Vincent Baudriller, os dois diretores atuais do Festival de Avignon.

Três perguntas a Vincent Baudriller, co-diretor do Festival de Avignon

"O Festival é um espaço onde somos confrontados à diversidade da criação."

Qual é a especificidade do Festival de Avignon?

Desde as suas origens há sessenta anos, o Festival de Avignon caracteriza-se por uma dupla preocupação: inovar e compartilhar. É um festival de criação onde os artistas convidados assumem o risco de propor novas formas de teatro, cuidando, ao mesmo tempo, para que as obras sejam accessíveis ao grande público. Jean Vilar, seu fundador, era motivado pelo ideal de um teatro popular, rompendo com os teatros burgueses parisienses e estava convencido da necessidade de colocar o público no centro de tudo. Desde então, os sucessivos diretores sempre buscaram aliar o imperativo da renovação com essa convicção de Vilar. Esta é a especificidade do Festival de Avignon e o segredo, a meu ver, da grande vitalidade desse evento.

Já faz quatro anos que o Senhor dirige o Festival de Avignon em parceria com Hortense Archambault. Qual é a sua contribuição para a renovação do evento?

Somos dois a dirigi-lo, pela primeira vez na história do Festival. E posso dizer que funciona muito bem, com bastante cumplicidade. Outra novidade é que realizamos essa coordenação em Avignon, diferentemente dos diretores anteriores, que ficavam em Paris, exceto durante o período do Festival. Finalmente, escolhemos ter a nosso lado um artista associado, que foi, em 2007, o ator e diretor francês Frédéric Fisbach.

O artista convidado nos fala, inicialmente, de seu olhar sobre o mundo do teatro. Somente após esse diálogo começamos a refletir sobre a programação, sobre a melhor maneira de objetivar essas observações na escolha e organização dos espetáculos. Esse tempo de diálogo é precioso, pois nos ajuda a reinventar anualmente o Festival, dando-lhe nuanças particulares. Ele também permite que mantenhamos nosso trabalho no centro da preocupação da criação artística.

Após algumas incursões pela África e pela Ásia, a partir do ano 2000 as programações do Festival parecem estar focalizadas sobre a Europa...

Acredito que o espaço natural do Festival de Avignon é o espaço europeu. Queremos que esse festival represente certa visão da cultura da Europa, uma cultura constituída por uma grande pluralidade lingüística e artística. Nossa ambição é propor aos espectadores a possibilidade de, no espaço de alguns dias, estar diante dessa diversidade que é consubstancial à identidade européia.

Mas é importante que o Festival também esteja aberto para o mundo, que seja um lugar de encontros e intercâmbio. Essa tradição vem desde a época de Jean Vilar, que havia convidado o Living Theatre(4) a Avignon, apesar das objeções dos financiadores. A presença em 2007 de dois notáveis artistas vindos dos dois Congos (o coreógrafo Faustin Linyekula e o ator Dieudonné Niangouna) se inscreve nesse espírito cosmopolita solidamente estabelecido na história do Festival.

Entrevista feita por Tirthankar Chanda


Para saber mais:
www.festival-avignon.com (site oficial)
www.avignon-off.org (site do festival “off”)

(1). Paralelamente à programação oficial, acontece na cidade um festival, chamado de “off”, que oferece grande quantidade de espetáculos.

(2). No século XIV, ameaçados por problemas na Itália de então, os papas se refugiaram temporariamente em Avignon, sob a proteção do rei da França.

(3). 1907-1988

(4) Grupo de teatro experimental fundado nos Estados Unidos no final dos anos 40 pelo pintor e poeta Julian Beck e pela atriz Judith Malina.